
Algumas fotos do King's College - Traseiras e Punting no rio Cam, fachada da capela, vista lateral da capela, e edifício principal do college.
As aventuras e desventuras de um físico português em Inglaterra...


E lá fomos nós todos contentes, seguindo a Mistress (reitora do college) até ao salão do jantar. E não é que o JE foi a falar com ela? Eheh tive a sorte de estar perto da porta da biblioteca, de modo que quando saíu fui ao lado dela. A primeira coisa que lhe perguntei foi como lhe chamar, já que estes tipos é só formalidades. "You may call me mistress". Ok! Lá fomos a falar de trivialidades. Quando entramos no salão (parecia quase uma capela, cheia de quadros nas paredes, velas nas mesas, um tecto alto), os estudantes mais novos já lá estavam todos à nossa espera de PÉ. Esperámos todos que a Mistress dissesse uma graça em Latim, e depois sentámo-nos. O jantar foi bom com excepção da sobremesa. Sopinha de cogumelos silvestres com bocadinho de pão, frango não-sei-quê (nome muito complicado para me lembrar), e por fim: um nome francês muita estranho e com umas 10 palavras mas que se resume em Sopa de Fruta. Estava quente, era castanho, tinha bocados de fruta que eu não reconhecia, e parece que também canela. Mal toquei naquilo. No fim disto tudo o homenzinho tocou o gongo e fomos para a sala de convívio dos graduados beber cházinho e tomar café. Senti-me mesmo importante! Havia lá um piano de cauda e tudo, ainda houve pessoal que foi para lá tocar.
O meu quarto é razoavelmente grande. Maior do que qualquer um que alguma vez tenha tido! Não me falta nada, a não ser uma cómoda para pôr a roupa que só virá no final de Outubro (ainda dizem que os ingleses são pontuais). Tenho uma janela grande que dá para o quintal e onde por entre as árvores vislumbro o céu. Umas vezes claro, outras vezes encoberto, hoje radiante! Aqui em casa somos sete homens. Eu, um coreano, um escocês e o resto não sei bem, penso que é tudo inglês. Não se socializa muito aqui em casa, dou-me mais com o escocês. Temos 3 casas de banho e uma cozinha grande. Tenho direito ao meu próprio armáriozinho e a um cantinho no frigorífico. Duas vezes por semana vêm as mulheres limpar a casa, mas não entram nos quartos. Deixo o baldezinho do lixo à porta do quarto e elas deitam fora. Cá dentro tenho de limpar eu.



6.45 da manhã começa o telemóvel a apitar. Lá vamos nós à aventura!Tan tan tan taaaraaaaaan, tan tan tan taaan ran ran ta ran ran tatatata TARAAAN (música do National Geographic)
Esta fotografia capta um exemplar raro da espécie Physicus Cromus em pleno acto de ruminação pós-almoço. Segue-se um breve relato dos pensamentos que assaltavam este belo espécimen no momento da nossa intrusão fotográfica:
"Xiiii! Não sabia que faziam biquinis assim tão pequenos! Aaah.. as alegrias da Costa da Caparica.. O pior vai ser agora quando fôr para Cambridge, que não há nada que se assemelhe a mar num raio de 70 km. Ai ai ai a minha vida, estou tão triste, tão triste! Mas olha, paciência, ao menos vejo-me livre de todas estas melgas que a única coisa que me sabem perguntar é
"Então quando é que vais? Então vais quando? Já estás de malas feitas?"
Como se não bastasse só me quererem ver pelas costas, fazem a mesma pergunta 10^2 vezes... (nota do autor: Note-se como a evolução levou a que este animal até já pense em notação científica) ..'Tou p'ra ver como vai ser quando lá chegar. Já estou a imaginar. Ligo o MSN e lá vêm eles:
"Então Migas! Tás bom? Como é a vida por aí? Já tens fotos novas?"
É tudo muito bonito, todos muito amiguinhos, o problema é quando começar a explicar a mesma coisa 10^3 vezes. Depois passo mais tempo no raio da net do que a estudar, chumbo, sou extraditado de volta para Portugal, e quando chegar ainda vou ter de os ouvir mais 5*10^1 vezes:
"Então Migas! Enterraste-te à grande foi? Epá que cena! Conta lá como foi isso!"
De tanto repetir a mesma história deprimente acabo por ficar com tendências suicidas e acaba-se a minha vida! Tenho de fazer qualquer coisa senão estou tramado! Hmm...
(nota do autor: Neste ponto deu-se uma paragem no fluir do pensamento do espécimen para o que se presume ser o processamento de dados no cérebro do animal. Dado que este foi programado pela selecção natural apenas para fazer coisas tão úteis como calcular séries de Taylor até à 35ª ordem, a ordem de grandeza do tempo roçou os 10^5 segundos, perdão, os cem mil segundos. Nessa altura o espécimen levantou-se da rocha e disse:
"Epá, estou a ficar com fome"
tendo-se deslocado de seguida ao MacDonalds mais próximo. No entanto, os nossos observadores, correndo perigo de vida, conseguiram descobrir algumas pistas sobre a solução achada pelo animal para resolver o seu problema. Ao que parece, dado que o problema consistia na necessidade de repetir o mesmo por várias vezes (o que compreensivelmente se tornaria cansativo), o animalzinho terá decidido recorrer a um "Blogue" (sic), que os seus amigos e familiares poderão consultar para ficarem devidamente informados sobre as suas últimas aventuras.
E assim termina mais um National Geographic, espero que tenham podido compreender um pouco melhor a vida e as motivações escondidas dessa espécie rara, o Physicus Cromus! Um bem haja, e até breve!